terça-feira, julho 05, 2005


Falando de louros



Odeio dobragens, que não de filmes e séries de animação infantil, bem infantil mesmo. Só não estava a ver de onde me vinha, de súbito, esta vontade de afirmar tal coisa. Até que reparei melhor no título do postzinho anterior: não há louros para os amadores. Quando o usei devo ter pensado que se apropriava ao tema dos Jogos Olímpicos, cada vez mais profissionalizados. E até ao favoritismo parisiense para 2012. Só hoje percebi que me veio do título de um filme que representou uma das mais monumentais banhadas da minha promíscua vida cinéfila. Há uns anos, deparei em Paris com o anúncio de um ciclo de cinema americano, Les héritiers de Hitchcock, ou algo parecido. O primeiro filme era apresentado como um thriller do início dos anos 60, baseado numa obra de Irving Wallace, The Prize, com Paul Newman e Edward G. Robinson. O resumo falava em intriga policial, com laivos de humor, passada em Estocolmo, entre os agraciados com o Nobel. Na dieta de pretensiosismo francês em que me via então diariamente envolvida (ninguém consegue ser tão absurdamente chato como um intelectual francófono) aquele trash americano criou-me água na boca. Antecipei o azul glorioso de Newman jovem, o rasping de Robinson, a intriga policial escapista, os clichés do género, Estocolmo na Primavera… enfim, um delicioso double cheeseburger em regime de escargots. Nhac!

Hélas! Era um cheeseburger com antenas. The Prize havia virado Pas de Lauriers pour les Tueurs. Paul Newman falava com a voz de um cantor popularucho, um Britney Spears francês, Edward G. Robinson era vocalizado por um fulano que noutra encarnação emprestara o seu laconismo a um qualquer high street cowboy. Só hoje percebi quanto fiquei traumatizada com aqueles cinco minutos de filme. Malditas dobragens que roubam a alma a qualquer Poupas! Go children of the country, the day of glory has arrived...